08 Sep 2025
8 min leitura
Teresa Almeida, Consultora de Compliance

Plataforma SaaS GDPR-Compliant: Como Escolher Software de Gestão Seguro em Portugal

Guia essencial sobre conformidade GDPR para software de assistência técnica. Saiba o que verificar, que perguntas fazer e como proteger os dados da sua empresa.

Maio de 2018. Lembro-me perfeitamente.

Estava numa reunião com o CEO de uma empresa de manutenção industrial em Braga. Quinze minutos a explicar o GDPR. A resposta dele? "Isso é para as grandes empresas. Nós somos pequenos, ninguém quer saber dos nossos dados."

Seis meses depois. Multa de 15.000 euros.

O crime? Enviar emails de marketing sem consentimento explícito. Mais: não conseguiu provar que tinha apagado os dados de um ex-cliente que pediu. O software que usavam simplesmente não tinha essa funcionalidade.

Quinze mil euros. Para uma PME, é a diferença entre lucro e prejuízo anual.

O GDPR Não É Um Bicho de Sete Cabeças (Mas Tem Dentes)

Vamos começar pelo básico, porque há muita confusão.

GDPR significa Regulamento Geral de Proteção de Dados. É lei europeia. Aplica-se a TODAS as empresas que processam dados pessoais. Sim, a vossa também.

"Mas nós só temos uma folha Excel com nomes e telefones!"

Exato. Isso são dados pessoais. Estão abrangidos.

Sabem o que mais são dados pessoais? O email joao.silva@gmail.com. O NIF no sistema de faturação. O endereço IP de quem visita o vosso site. A matrícula do carro no registo de entrada. Tudo.

E as multas? Vão até 20 milhões de euros ou 4% da faturação anual global. O que for maior.

Ainda acham que é só para as grandes empresas?

A Realidade das Multas em Portugal (Números Verdadeiros)

A CNPD (Comissão Nacional de Proteção de Dados) não brinca. Alguns casos reais:

  • Hospital público: 400.000€ por acesso indevido a dados
  • Empresa de telecomunicações: 75.000€ por marketing sem consentimento
  • PME de serviços: 12.500€ por não ter contrato com processador de dados
  • Microempresa: 4.000€ por não responder a pedido de acesso a dados

Notem: não é preciso haver um breach massivo. Basta não cumprir os básicos.

O Que Realmente Procurar Num Software SaaS

Esqueçam o marketing. "Somos 100% GDPR compliant!" Toda a gente diz isso.

Aqui está o que devem REALMENTE verificar:

1. Onde Estão Fisicamente os Dados?

Pergunta simples: "Em que país estão os servidores?"

Se a resposta for vaga tipo "na cloud", fujam. Se for "Estados Unidos", complica. Se for "União Europeia", bom começo.

Porquê? Dados na UE = proteção do GDPR. Dados fora = transferências internacionais = dor de cabeça legal.

Testem vocês mesmos. Façam traceroute ao domínio. Vejam onde param os dados. Ficaria surpresa com quantas empresas "portuguesas" têm dados em servidores americanos.

2. O Teste do "Delete Account"

Criem uma conta trial. Metam dados fictícios. Agora tentem apagar TUDO.

Conseguem? Em quanto tempo? Os dados desaparecem mesmo ou só ficam "inativos"?

História real: testei um software português famoso. Pedi para apagar a conta. Resposta: "Podemos desativar, mas os dados ficam por questões fiscais."

Questões fiscais? Faturas sim, têm de guardar. O resto? Não. É violação do GDPR.

3. A Questão dos Subprocessadores

O vosso software usa outros serviços? Claro que usa. Email transacional (SendGrid, Mailgun). Armazenamento (AWS, Google Cloud). Analytics (Google Analytics, Mixpanel).

Cada um destes é um subprocessador. Têm de estar listados. Têm de ser GDPR compliant também.

Perguntem: "Podem dar-me a lista completa de subprocessadores?"

Se hesitarem ou disserem que é confidencial, red flag imediata.

As Perguntas Que Os Vendedores Odeiam (Mas Têm de Responder)

Quando estiverem a avaliar software, façam estas perguntas. Por email. Queremos respostas escritas.

Pergunta 1: "Têm DPA (Data Processing Agreement) standard? Posso ver?"

O DPA é obrigatório. Define quem é responsável pelo quê. Se não têm, não são sérios.

Pergunta 2: "Como garantem a portabilidade dos dados?"

Têm de conseguir exportar TODOS os vossos dados. Em formato legível. Quando quiserem.

Pergunta 3: "Qual é o vosso procedimento em caso de breach?"

Resposta certa: "Notificamos em 24-48h, investigamos causa, tomamos medidas corretivas, informamos autoridades se necessário."

Resposta errada: "Nunca tivemos problemas."

Pergunta 4: "Têm seguro de responsabilidade civil para violações de dados?"

Isto separa amadores de profissionais. Seguro = levam segurança a sério.

Pergunta 5: "Fazem auditorias de segurança? Posso ver o último relatório?"

Pen-testing anual é o mínimo. Se não fazem, são um alvo fácil para hackers.

O Mito do "Nós Tratamos de Tudo"

Vendedor: "Não se preocupe, nós tratamos de tudo do GDPR!"

Mentira.

O GDPR tem responsabilidades partilhadas. Eles (processadores) têm as deles. Vocês (controladores) têm as vossas.

O Que É Vossa Responsabilidade (Sempre)

  1. Ter base legal para processar dados (consentimento, contrato, etc.)
  2. Informar os titulares sobre o que fazem com os dados
  3. Responder a pedidos (acesso, retificação, eliminação)
  4. Manter registos de atividades de processamento
  5. Garantir que fornecedores são compliant

Nenhum software faz isto por vocês. Podem facilitar, mas a responsabilidade é vossa.

Casos Reais: O Bom, o Mau e o Feio

O Bom: Empresa Que Fez Tudo Certo

Empresa de limpeza industrial, 30 funcionários. Escolheram software português, servidores em França, tudo documentado.

Cliente pediu todos os seus dados (direito de acesso). Responderam em 3 dias. Excel com tudo.

CNPD fez inspeção de rotina. Zero problemas. Até elogiaram.

O Mau: A Que Quase Correu Mal

Empresa de ar condicionado. Software americano "super seguro".

Problema: não perceberam que os backups iam para servidores nos EUA. Tecnicamente, transferência internacional ilegal.

Sorte: descobriram antes da CNPD. Mudaram de software. Custou 3.000€ em consultoria legal para remediar.

O Feio: O Desastre Total

Empresa de manutenção de elevadores. Software barato da China (sim, existe).

Breach. Dados de 500 clientes expostos. Incluindo NIFs e IBANs.

Não notificaram a tempo (têm 72h). Não tinham DPA. Não tinham nada.

Multa: 50.000€. Processos de clientes: 3. Reputação: destruída.

Fecharam 8 meses depois.

A Checklist Prática (Imprimam Isto)

Quando avaliarem software, verifiquem:

Localização:

  • [ ] Servidores na UE
  • [ ] Backups na UE
  • [ ] Empresa tem representante na UE

Documentação:

  • [ ] DPA disponível
  • [ ] Política de privacidade clara
  • [ ] Lista de subprocessadores
  • [ ] Certificações (ISO 27001 é bonus)

Funcionalidades:

  • [ ] Exportar todos os dados
  • [ ] Apagar dados (verdadeiramente)
  • [ ] Logs de auditoria
  • [ ] Controlo de acessos granular
  • [ ] Encriptação (mínimo TLS 1.2)

Suporte:

  • [ ] Respondem em 48h
  • [ ] Falam português
  • [ ] Conhecem GDPR português

Red Flags (Fujam Se Virem Isto):

  • "Guardamos dados para sempre por segurança"
  • "Não precisam de se preocupar com GDPR"
  • "Os nossos servidores são secretos por segurança"
  • "Partilhamos dados com parceiros para melhorar o serviço"
  • Termos de serviço só em inglês/chinês/outra língua

O Custo Real de Não Ser Compliant

Não são só as multas. É muito mais:

  1. Perda de clientes - Grandes empresas só trabalham com fornecedores compliant
  2. Custos legais - Advogados não são baratos
  3. Tempo perdido - Responder a inspeções demora semanas
  4. Reputação - Uma multa pública = anos a recuperar
  5. Stress - Não dormir a pensar se vão ser multados

Um software compliant custa mais 20-30€/mês? Custa. Vale a pena? Façam as contas.

Como Implementar Compliance (Sem Panicar)

Passo 1: Auditoria Básica (1 dia)

Listem:

  • Que dados recolhem
  • Onde os guardam
  • Quem tem acesso
  • Com quem partilham

Vão descobrir coisas assustadoras. Normal. É para isso que serve.

Passo 2: Escolher Software Certo (1 semana)

Usem a checklist acima. Testem 2-3 opções. Façam as perguntas difíceis.

Não tenham pressa. Mudar depois é um pesadelo.

Passo 3: Documentar Tudo (ongoing)

Criem pasta "GDPR" com:

  • Contratos (DPAs)
  • Políticas (privacidade, cookies)
  • Registos (consentimentos, pedidos)
  • Procedimentos (breach, pedidos dados)

Chato? Sim. Necessário? Absolutamente.

Passo 4: Formar Equipa (2 horas)

Toda a gente tem de saber:

  • Não partilhar passwords
  • Não enviar dados por email pessoal
  • Reportar imediatamente problemas
  • Pedir consentimento antes de recolher dados

Básico? Sim. Mas é o básico que falha.

A Verdade Sobre Fiscalização

A CNPD tem poucos recursos. Não andam a bater a todas as portas.

Mas...

80% das inspeções começam com denúncias. Cliente insatisfeito. Ex-funcionário. Concorrente.

Os outros 20%? Acidentes. Breach que se torna público. Notícia no jornal. Post viral no Facebook.

Ou seja: não é questão de se vão ser fiscalizados. É quando.

Conclusão: O Mínimo Que Devem Fazer

Se só retiverem três coisas deste artigo:

  1. Escolham software com servidores na UE e DPA
  2. Documentem tudo (chato mas salva-vos)
  3. Tratem dados dos outros como gostariam que tratassem os vossos

O GDPR não é um problema. É uma oportunidade. Oportunidade de serem profissionais. De transmitirem confiança. De se diferenciarem da concorrência que ainda anda no "deixa andar".

Num mundo onde dados são o novo petróleo, quem os protege melhor, ganha.

E sinceramente? Dormir descansado, sem medo da próxima inspeção, não tem preço.

Agora vão verificar onde estão os vossos dados. A sério. Agora.


Nota: Este artigo contém orientações gerais sobre GDPR baseadas na experiência prática com empresas portuguesas. Para situações específicas, consultem sempre um especialista em proteção de dados ou advogado especializado.

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