Oito da manhã. Segunda-feira.
O telefone já tocou cinco vezes. Três emails urgentes. WhatsApp? Nem quero ver.
Esta era a minha vida há dois anos quando geria a assistência técnica de uma empresa de climatização no Porto. Quinze técnicos, mais de cem clientes fixos, e eu... completamente perdido.
O pior nem eram os pedidos. Era não saber qual era realmente urgente. Lembram-se daquela história do pastor e do lobo? Pois. Quando todos os clientes dizem que é "urgente", nada é urgente. E depois, quando há mesmo uma emergência, já não sabemos distinguir.
A Realidade Nua e Crua
Deixem-me pintar o quadro completo.
Numa empresa típica de assistência técnica em Portugal, os pedidos chegam por todo o lado. Telefone, claro. Email, obviamente. Mas também WhatsApp pessoal do dono. Facebook da empresa. Aquele cliente que aparece na oficina às 7h30 "só para pedir uma coisinha rápida". O comercial que prometeu "para ontem" sem falar com ninguém.
É o caos.
E sabem qual é o resultado? No final do dia, ninguém sabe quantos pedidos entraram. Muito menos quantos foram resolvidos.
Fiz um exercício simples na empresa. Durante uma semana, registei TODOS os pedidos. Todos mesmo. Resultado?
Em média, 30% dos pedidos perdiam-se. Simplesmente desapareciam. O cliente ligava duas semanas depois, furioso: "Então e o meu pedido?" Que pedido? Ninguém sabia.
O Sistema Que Me Salvou (E a Sanidade Mental)
Vou contar-vos o que mudou tudo. Não foi tecnologia cara. Não foi um consultor de Lisboa com fato de marca. Foi senso comum aplicado com disciplina.
Primeiro, centralizámos tudo. TUDO.
A Centralização (Que Parece Óbvia Mas Ninguém Faz)
Criámos um email único: assistencia@[empresa].pt
Regra número um: TODOS os pedidos passam por aqui. Sem exceções.
"Ah, mas o cliente ligou!" Ótimo. Quem atendeu envia email com os detalhes. "Veio cá pessoalmente!" Perfeito. Preenche o formulário e envia. "Mandou WhatsApp!" Reencaminha para o email.
No início foi difícil. Os clientes habituados a ligar diretamente ao telemóvel do João ou do Manuel não gostaram. Mas explicámos: "É para garantir que o seu pedido não se perde."
Funcionou.
Em duas semanas, 95% dos pedidos já entravam pelo canal único. E sabem o que descobrimos? Que afinal não eram 20-30 pedidos por dia como pensávamos. Eram 45-50. Metade andava perdida no éter.
O Truque da Priorização (Que Ninguém Quer Admitir)
Aqui vai uma verdade inconveniente: nem todos os clientes são iguais.
Chocante? Talvez. Realista? Completamente.
Criámos um sistema simples. Três fatores:
- Impacto do problema (quantas pessoas afeta?)
- Tipo de contrato (tem contrato premium? básico? pay-per-service?)
- Histórico (é cliente há 10 anos ou 10 dias?)
A fórmula? (Impacto x 2) + Contrato + Histórico = Prioridade
Exemplo real:
- Ar condicionado avariado num escritório com 50 pessoas em agosto = Impacto 10
- Cliente com contrato gold = 5 pontos
- Cliente há 8 anos = 3 pontos
- Total: (10x2) + 5 + 3 = 28 pontos = URGENTE
Versus:
- Torneira a pingar numa casa de banho pouco usada = Impacto 2
- Sem contrato = 1 ponto
- Cliente novo = 1 ponto
- Total: (2x2) + 1 + 1 = 6 pontos = Pode esperar
Injusto? Não. Realista.
Os Problemas Que Ninguém Fala
O Drama do "Já Que Está Aqui"
Conhecem este cliente? O técnico vai trocar uma lâmpada e o cliente diz: "Já que está aqui, pode ver só uma coisinha no ar condicionado?"
Uma coisinha. Que demora duas horas. E desarranja a agenda toda.
Solução? Simples mas precisa de coragem: "Claro, vamos agendar para amanhã. Hoje tenho mais três clientes à espera."
Perdemos clientes com isto? Zero. Zero! Pelo contrário. Passaram a respeitar mais o nosso tempo porque perceberam que respeitamos o tempo dos outros clientes.
A Questão dos Técnicos Prima Donna
Vou ser brutalmente honesto. Alguns técnicos acham que sabem melhor que ninguém que cliente atender primeiro.
"Vou ali ao Senhor José porque fica a caminho de casa." "A Dona Maria pode esperar, ela é sempre assim."
Não. Não podem decidir sozinhos.
Implementámos uma regra simples: a ordem de serviço vem do sistema. Ponto. Querem sugerir alterações? Óptimo, liguem para o coordenador. Mas não decidem sozinhos.
Houve resistência? Imensa. Durante duas semanas foi o fim do mundo. Depois perceberam que assim tinham menos chatices. O cliente reclama? "Desculpe, estou a seguir a ordem do sistema." Pronto, problema do coordenador, não deles.
A Tecnologia (Que Não É Assim Tão Complicada)
Começámos com Excel. Juro. Uma folha partilhada no Google Drive.
Colunas simples:
- ID do pedido (numeração automática)
- Data/hora entrada
- Cliente
- Problema
- Prioridade (calculada pela fórmula)
- Técnico atribuído
- Estado (Novo/Em curso/Concluído)
- Notas
Funcionou durante seis meses. Quando crescemos, passámos para um sistema online. Mas o Excel foi suficiente para começar.
A App Mobile (Que Mudou Tudo)
Quando finalmente investimos numa app para os técnicos, foi revolucionário.
Em vez de ligar para o escritório 10 vezes por dia, tinham tudo no telemóvel. Lista de trabalhos. Endereços. Histórico do cliente. Peças usadas anteriormente.
Mas o melhor? O cliente assina no telemóvel. Acabou a conversa do "não foi bem isso que o técnico fez". Está tudo documentado. Com hora, foto, e assinatura.
Um técnico disse-me: "É como ter uma secretária no bolso." Exacto.
Métricas Que Interessam (E As Que Não)
Toda a gente quer medir tudo. KPIs disto, dashboards daquilo.
Sabem o que realmente importa? Três coisas:
- Tempo de primeira resposta - Quanto tempo entre o pedido chegar e alguém contactar o cliente?
- Taxa de resolução na primeira visita - Quantas vezes o técnico resolve logo vs tem de voltar?
- Pedidos por técnico por dia - Estão a fazer 3 ou 8? Porquê a diferença?
O resto é cosmética.
Ah, e satisfação do cliente? Pergunta simples no fim: "De 1 a 10, recomendaria os nossos serviços?" Menos de 8 é problema. Investiguem.
Casos Reais (Sem Nomes, Com Lições)
O Cliente Que Ligava 5 Vezes Por Dia
Tínhamos um cliente, dono de vários restaurantes, que ligava constantemente. Tipo, 5-6 vezes por dia. Sempre em pânico. Sempre urgente.
Descobrimos o problema: não confiava no sistema. Achava que se não ligasse, seria esquecido.
Solução? Demos-lhe acesso ao portal de cliente. Podia ver o estado do pedido em tempo real. "Técnico a caminho", "Em resolução", "Concluído".
As chamadas? Desceram para 1-2 por semana. Só para assuntos realmente novos.
A Sexta-Feira Negra
Num dia de julho, sexta-feira, 35 graus, três técnicos faltaram. Doença súbita (aka praia).
Tínhamos 18 pedidos urgentes de ar condicionado. Com metade da equipa.
O sistema salvou-nos. Reorganizámos por zona geográfica. Ligámos aos clientes menos urgentes, explicámos a situação, reagendámos para segunda com 10% desconto.
Resultado? Zero clientes perdidos. Alguns até elogiaram a transparência.
O Técnico Que Virou Coordenador
O António era o nosso melhor técnico. Resolvia tudo. Clientes adoravam-no.
Promovemo-lo a coordenador. Desastre total. Não conseguia dizer não a ninguém. Prometia o impossível. A agenda virou um caos.
Lição aprendida: ser bom técnico não significa ser bom gestor.
Voltou a técnico sénior (com aumento). Contratámos um coordenador com experiência em logística. Toda a gente ficou mais feliz.
Implementação Para Quem Está a Começar
Se estão a ler isto e a pensar "preciso disto", aqui vai um plano realista:
Semana 1: Diagnóstico Brutal
Contem tudo. Quantos pedidos por dia? Por que canais? Quanto tempo para resolver? Quantos se perdem?
Não mintam a vocês próprios. Os números não mentem.
Semana 2: Centralização
Escolham UM canal principal. Email é o mais fácil. Avisem TODOS os clientes. Sejam firmes.
Semana 3: Priorização
Definam critérios claros. Comuniquem à equipa. Preparem-se para resistência.
Semana 4: Medição
Comecem a medir o básico. Tempo de resposta. Taxa de resolução. Não compliquem.
Mês 2: Ajustes
Vejam o que não funciona. Ajustem. Não tenham medo de mudar.
Mês 3: Tecnologia
SÓ agora pensem em software. Já sabem o que precisam. Não vão comprar features inúteis.
Os Erros Que Custam Caro
Erro #1: Achar que tecnologia resolve tudo. Não resolve. Processo primeiro, tecnologia depois.
Erro #2: Não envolver a equipa. Se os técnicos não comprarem a ideia, falha. Garantido.
Erro #3: Querer perfeição desde o início. Comecem simples. Melhorem gradualmente.
Erro #4: Ignorar os clientes difíceis. São estes que vos ensinam onde o sistema falha.
Erro #5: Não medir nada. Se não medem, não podem melhorar.
A Verdade Que Poucos Admitem
Sabem qual é o maior benefício de ter um sistema de gestão de pedidos?
Não é a eficiência. Não é a produtividade.
É a paz de espírito.
Saber que nada se perde. Que cada cliente é atendido. Que a equipa sabe o que fazer.
Chegar a casa e não pensar "será que me esqueci de alguma coisa?"
Isso não tem preço.
Conclusão: Ou Fazem Ou Morrem
Vou ser direto.
No mercado atual, com a concorrência que há, uma empresa de assistência técnica sem sistema de gestão de pedidos tem os dias contados.
Não é questão de se vão falir. É quando.
Os clientes hoje esperam:
- Resposta rápida
- Transparência total
- Profissionalismo
Sem sistema, não conseguem dar nenhuma destas coisas consistentemente.
A boa notícia? Não é difícil começar. Não é caro. E os resultados aparecem em semanas, não meses.
A má notícia? Se não fizerem nada, a concorrência vai fazê-lo. E vão ficar para trás.
A escolha é vossa.
Nota: As situações descritas baseiam-se em experiências reais de implementação de sistemas de gestão em empresas portuguesas. Detalhes foram alterados para proteger a privacidade das empresas envolvidas.